Medidas Drásticas

Eli Ortolan

Técnica
Pintura sobre retalhos de tecido

Materiais
Tinta de parede e acrílica sobre retalhos de tecidos diversos.

Dimensões
Cada peça tem cerca de 1,5x1 m, somando 1,5x5m no total

Ano
2023

Tiragem
5

Texto descritivo
A obra deve ser exposta em uma parede branca, com capacidade de alocar seu tamanho. Os tecidos serão esticados por pregos na parede, presos pelas faixas de couro já dispostas na própria obra. As peças podem ser expostas separadas, sem necessidade de expor o conjunto inteiro, mas, de preferência, com mais de uma inserida; devem ter a distância mínima de 50 centímetros do chão e de 20 centímetros entre si. Caso haja necessidade, posso auxiliar na montagem da obra.

Texto conceitual
Foi normalizada a ideia de que, para indivíduos trans poderem ser caracterizados como o gênero que se identificam, devem passar por inúmeras cirurgias invasivas e de lenta recuperação. É costumeiro que pessoas se habituem à dor passada por esse grupo, presos no espetáculo para muitos tão doloroso apenas para se encaixar no molde corporal que, frequentemente, não é o que o próprio sujeito pedia. Neste tópico, a obra “Medidas Drásticas” (2023) retrata a anatomia masculina “ideal” em contraste com três das cirurgias mais comuns em pessoas transmasculinas: a androgenização facial, a mastectomia e a faloplastia. Pintadas em tinta acrílica, as figurações retiradas de registros médicos contrastam com estampas floridas de tecidos retalhados e costurados juntos, assim escolhidos mediante a disforia de gênero — ou seja, o desconforto experienciado como pessoa trans com relação a elementos específicos de cada um — do artista.
“Medidas Drásticas” é um grito em busca da liberdade de um indivíduo reprimido no próprio corpo. É a busca da identificação de si mesmo em um lugar incômodo — é destruir o que dói para reconstruir a si mesmo, ainda que as cicatrizes sejam visíveis. Mais do que isso, exposto de maneira que o tecido se estique em tensão, de maneira semelhante ao couro de um animal, as peças são mostradas de forma a questionar quão humana pode ser desejar essa dor ao próprio corpo mediante uma aprovação do externo ao interno. A provação física que muitas pessoas trans podem ser pressionadas a passar é retirada de dentro para exteriorizar sua desumanização — como se para exorcizar um mal interno, sintetizando-nos além do precário a que somos aproximados por pessoas de fora.
É questionar o motivo dessa espetacularização das dores. É, mais que isso, para explicitar o doloroso caminho que muitas pessoas devem se submeter para que caibam no que a sociedade diz ser seu gênero. Um grito que se dá, muitas vezes, para não só fazer o seu próprio sentimento desaparecer, mas para que outro alguém o possa ver como semelhante.

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