Impura
Camilly Oliveira
Técnica
Escultura
Materiais
Biscuit sobre estrutura de jornal e arame, tinta guache, agulha, linha de costura
Dimensões
34 x 17 x 7 cm
Ano
2023
Texto descritivo
Esta obra é caracterizada por um ser não humano, de aparência esquelética, o qual tem em seu abdômen, rostos humanos em tons de roxo, azul e verde. Sua pele é cinza azulada. Sua cabeça é uma rosa de coloração preta, não portando um rosto próprio. Feita com arame, jornal e fita crepe, posteriormente sendo coberta com uma camada de biscuit branco, modelada e, após secagem, pintada com tinta acrílica e guache.
Nesta obra, esta figura se automutila em uma tentativa de costurar sua própria genitália.
A obra pode ser exposta com um suporte de madeira ou uma haste que a segure por baixo dos braços. A iluminação deve ser, preferencialmente de cima, para que possa criar sombras.
Texto conceitual
A obra "Impura" é um aglomerado de símbolos que remetem a imagem e às mazelas sociais associadas a mulher, principalmente o silenciamento e da mutilação auto infligida para
alcançar um padrão estético e aceitação no meio.
Assim, a Rosa Negra, colocada como a cabeça
da personagem, é a idealização do feminino. Essa
espécie de rosa dificilmente é encontrada na natureza,
sendo geralmente criada artificialmente e é associada à
sofisticação e devoção eterna, mas também à morte. A
rosa, como flor, simboliza essa feminilidade ideal, que
aprisiona a mulher na posição de submissa, fiel, bela,
recatada e delicada. Seus espinhos, opiniões,
vontades,
desejos e personalidade, devem ser podados,
arrancados, para que possa ser útil aos seus propósitos. O preto está presente como o luto, a
morte do indivíduo perante as pressões impostas.
A forma esquelética se dá pela fome constante de liberdade, segurança e compreensão,
entendimento. Uma fome que não se extingue com coisas materiais, por mais que possam ser
aplicadas minimamente com ilusões. Por vezes, a mulher sequer reconhece seu papel social infligido, suas necessidades
negligenciadas, presa na ignorância dessa bolha ilusória, em um
furacão de emoções indefinidas.
Os rostos que se sobressaem de seu abdômen são a personificação dessas angústias
entaladas na garganta, engolidas a força, porém não digeridas.
As cores também são um aspecto importante. O azul (a tristeza), o verde (a revolta
que, engolida a força, queima como veneno e adoece o corpo) e
o roxo (a luxuria e a maldade,
ligadas aqui à liberdade sexual e de
expressão negadas a mulher e associação da imagem da
mulher com o pecado).
Nesta obra, ao tentar se costurar, há uma tentativa de atender aos padrões impostos de comportamento, assim como questões sobre a virgindade e o sentimento de revolta que por vezes reflete o pensamento "se fosse um homem, não aconteceria isto".
Portanto, colocar esta personagem na posição dessas mulheres é impor de volta à
sociedade aquilo que ela busca ignorar, justificando o injustificável, e forçando de maneira
impactante esta realidade. Gravando na retina o horror do “ser mulher”.