Formação Arbórea n1

Paula Fernanda Monte Santo

Técnica
Fotografia Contemporânea

Materiais
Pigmento Mineral sobre papel fine art 100% algodão

Dimensões
65 x 80 cm de largura

Ano
2024

Tiragem
1/1

Texto descritivo
enviado em PDF

Texto conceitual
Formação Arbórea n.1
A obra Formação Arbórea n.1 propõe uma inscrição imagética do tempo não como linha, mas como corpo.
Parte da imagem de um tronco seccionado mas não o apresenta em sua literalidade e sim como estrutura sensível de um tempo encarnado. O que se vê na superfície é o modo como a vida se deposita em camadas, como o tempo se inscreve em círculos concêntricos e em sulcos — assim como os traços de vida também se imprimem na pele, nas digitais e na formação cerebral do ser humano.
Cada anel visível revela o rastro de um acontecimento, de uma permanência, de um gesto biológico repetido e transformado. Assim como os corpos humanos registram o que viveram em cicatrizes, curvaturas, silêncios ou resistências, o corpo da árvore carrega o tempo não como medida, mas como marcação existencial.
A justaposição desses ciclos cria um tempo que não se move para frente como o calendário gregoriano e o relógio moderno, mas que se acumula em rotas espiralares, não-lineares e espacializadas, compreendido por diversos povos originários como retorno e como escuta. Esses povos desenhavam e marcavam o tempo em círculos como pode ser visto nos calendários das populações andinas e nos registros arquitetônicos de Stonehenge, uma vez que estavam muito mais de acordo com os ciclos da natureza e àqueles experienciados pelo corpo humano, os quais mesmo repetindo-se, não apresentavam-se da mesma maneira.
A física clássica, newtoniana, consolidou o tempo como eixo absoluto: uma linha contínua, homogênea, infinita, no entanto a física relativista e a cosmologia contemporânea desestabilizam essa linearidade: o tempo pode se curvar, desacelerar, acelerar — dependendo da gravidade, da velocidade, da posição do observador. E na obra, essa mutação do tempo é próprio processo e a forma.
Formação Arbórea n.1 espelha o tronco, devolvendo-nos uma figura quase humana que, no entanto, lembra mais um totem. Há, na imagem, uma potência poética que não se limita ao que se vê. Sua simetria convoca o imaginário de uma entidade ritual, uma criatura antiga ou futura, nascida da escuta do tempo e da terra, diferente daquele experienciado por nós: tempo das máquinas, útil, produtivo e projetado.
Dentro do conceito proposto pela exposição, estabelece uma conversa em contraste com a lógica da natureza-morta — como na obra Flores, de Vicente Di Grado —, que congela o tempo no auge da visibilidade da vida, ao revelar um tempo que permanece sob a superfície, vivo mesmo após o corte. A pintura de Di Grado se inscreve no campo do instante paralisado, do esplendor interrompido; já Formação Arbórea n.1 convoca um tempo incorporado, um corpo que carrega o passado não como lembrança, mas como forma.

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