"É assim que eles nos vêem"

Voxel

Técnica
Instalação multimídia com vídeo arte digital e objeto escultórico.

Materiais
Vídeo Arte gerada a partir de interface de inteligência artificial, pedestal e alicate esticador de mesa

Dimensões
1,54 m x 40,3 cm ocupados verticalmente pelas TVs (instaladas entre 1,40 m e 1,60 m de altura do pis

Ano
2025

Tiragem
-

Texto descritivo
enviado em PDF

Texto conceitual
A instalação “É assim que eles nos veem”, inscrita no eixo curatorial "Entre: tempo e lugar", propõe uma reflexão crítica sobre os modos de ver mediados por sistemas algorítmicos, evidenciando o processo de abstração progressiva que se estabelece entre o campo da percepção, das visualidades e das imagens técnicas.
Composta por dois televisores e uma mesa, a obra apresenta, no primeiro vídeo, a interface de um sistema de inteligência artificial; no segundo, as imagens por ele geradas. Ambas resultam de fotografias de obras do acervo do MUBA — Praça Monteiro Lobato (1991), de Katia Salvany, e Sem título (s/d), de Marcos Lopes. No centro da instalação, um alicate esticador de tela repousa sobre um pedestal, simbolizando a tensão entre o gesto humano e a operação algorítmica.
Se, por um lado, as "imagens tradicionais" (FLUSSER, Vilém), como pinturas e desenhos, já representam uma abstração da realidade tridimensional para o plano bidimensional, por outro, as fotografias, filmagens e imagens algorítmicas derivadas dessas obras instauram uma cadeia de abstrações sucessivas. Essas transformações caracterizam o que Flusser descreve como a era nulodimensional: uma sucessão de desmaterializações em que as imagens perdem espessura física para reconstruir, sob novos regimes visuais, fragmentos da realidade.
De acordo com Flusser, as imagens técnicas não mais representam diretamente o mundo, mas resultam de operações programadas, nas quais a matéria torna-se código e a presença, espectro e ruído. Não se busca, aqui, um referente real; propõe-se, antes, uma observação crítica daquilo que as máquinas elegem como visível — um visível que, progressivamente, também se torna o nosso.
Essa sobreposição de camadas — realidade, imagem técnica e registro da imagem técnica — gera um paradoxo: quanto maior a precisão algorítmica, mais intensa a imprecisão perceptiva. As imagens deixam de representar o visível para se converterem em pixels, contrastes e tramas de padrões numéricos.
Nesse movimento, a obra tensiona o espaço entre a tradição da imagem e sua reformulação técnica; entre o gesto humano e o cálculo automatizado; entre a luz do mundo e a luz da tela. Não propõe uma releitura das obras do acervo, mas um deslocamento de paradigma: um convite a observar como o tempo (da experiência) e o lugar (da presença) se dissolvem quando mediados pelas imagens que os algoritmos constroem sobre nós.Se por um lado as “Imagens Tradicionais” (FLUSSER, Villem) como pinturas e desenhos, por si só já constituem uma abstração da realidade do tridimensional ao bidimensional, as fotografias, filmagens e imagens geradas por algoritmos a partir dessas obras, por outro, instauram uma sequência de abstrações que correspondem a formações e desmaterializações sucessivas de imagens técnicas, características da era nulodimensional, as quais a cada processo, perdem dimensões físicas com o intuito de nos devolver e reconstruir visualmente parte do que é a realidade. Essas imagens, conforme define Vilém Flusser, não são mais a representação direta do mundo senão uma operação resultante de um programa que, destituídos de percepção e/ou experiência, tornam a matéria em código e a presença em espectro e ruído.
Não há busca por um referente real, mas sim uma observação crítica daquilo que as máquinas consideram visível e que muitas vezes torna-se a nossa própria visualidade. Essa sobreposição de camadas — realidade, imagem técnica, e registro da imagem técnica — gera um paradoxo: quanto mais se acumula precisão algorítmica, mais se intensifica a imprecisão perceptiva. As imagens geradas pelos algoritmos deixam de representar o visível para tornarem-se pixel, contraste, tabuleiro e trama de padrões numéricos. Nesse movimento a obra insere-se no eixo “Entre: tempo e lugar” uma vez que opera no entremeio entre a tradição da imagem e a sua reformulação técnica; entre o gesto humano e o cálculo automatizado; entre a luz do mundo e a luz da tela. Não propondo uma releitura das obras do acervo em si, mas um deslocamento de paradigma — um convite a observar os modos como o tempo (da experiência) e o lugar (da presença) se diluem quando mediados pelas imagens que os algoritmos constroem sobre nós.

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