Ser-Mundo
Paula Fernanda Monte Santo
Técnica
Escultura
Materiais
Cerâmica
Dimensões
45 x 45 x 60 cm
Ano
2025
Tiragem
não há
Texto descritivo
enviado em PDF
Texto conceitual
Ser-Mundo (2025) é uma escultura cerâmica construída por meio da técnica de acordelamento, utilizando diferentes tipos de argila (Caffé, Terracotta, Bianca e Tabaco). Sua forma emerge de um processo relacional entre gesto e matéria, no qual as cordas se entrelaçam por meio de costuras que tornam visível a própria construção do corpo da obra.
Ao longo do processo, tornou-se evidente que nenhuma camada permanecia intacta: as cores se atravessam, os limites se desfazem e a matéria se constitui sempre em relação, de maneira que a peça não se organiza como unidade estável, mas como um campo de transformações contínuas, aproximando-se de uma lógica rizomática, em que identidades se formam a partir de encontros, contaminações e deslocamentos.
É, sobretudo, a partir do pensamento arquipelágico proposto por Édouard Glissant que a obra encontra seu eixo central. “Ser-Mundo” opera como um território de coexistência, no qual diferenças persistem sem se dissolver em homogeneidade. A obra em si não representa o mundo ou um corpo, mas constitui-se como um um mundo possível: instável, relacional e em permanente devir.
As contribuições de Tim Ingold aprofundam essa compreensão ao pensar a matéria como fluxo e linha viva. A técnica de acordelado e as costuras evidenciam um processo em curso, no qual gesto, tempo e material se implicam mutuamente. Ao mesmo tempo, sua aparência evoca ruínas. As camadas expostas aproximam-se de formações estratigráficas, remetendo a paisagens de escavação e ao Antropoceno; inserindo-se, assim, no eixo curatorial ao compreender o “fim do mundo” como processo no qual construção e desgaste coexistem.
“Ser-Mundo” articula permanência e ruína, propondo uma metáfora da experiência contemporânea: um corpo em travessia, sem retorno ou forma final, onde a continuidade se dá pela transformação.