A Dança de Shiva

Paula Fernanda Monte Santo

Técnica
Desenho

Materiais
Grafite sobre papel

Dimensões
75 x 100 cm

Ano
2025

Tiragem
não há

Texto descritivo
enviado em PDF

Texto conceitual
Muito antes da constituição dos sistemas científicos, a relação dos seres humanos com o mundo se dava sob o signo da dependência e da exposição. A natureza não se apresentava como exterioridade a ser analisada, mas como campo de forças que sustentava e, ao mesmo tempo, ameaçava a continuidade da vida. Nesse contexto, diferentes culturas atribuíram dimensão divina aos fenômenos naturais, não apenas como tentativa de explicação, mas como forma de ordenar a existência diante do imprevisível.
No presente, marcado pelo Antropoceno, a instabilidade retorna sob outras formas. O “fim do mundo” deixa de ser projeção mítica e passa a se manifestar como processo contínuo, no qual colapso e reorganização coexistem. A paisagem, nesse cenário, já não pode ser compreendida como imagem estável, em sua própria etimologia há um deslocamento de sentido: não como aquilo que se vê, mas como aquilo que se molda, uma construção que emerge da relação entre corpo, matéria e experiência.
A obra "A dança de Shiva" se insere nesse campo. Partindo imagem do centro de um tronco de árvore cortado — uma superfície onde o tempo se inscreve materialmente. O corte, ao expor essa estrutura, torna visível uma organização que resulta de processos acumulativos e contínuos. Ao ser espelhada, essa imagem deixa de operar como vestígio isolado e passa a constituir um campo de tensão, no qual a forma se organiza e se desestabiliza simultaneamente. O desenho se constrói por meio de linhas que se repetem e se propagam, instaurando uma dinâmica de expansão. A imagem não se fixa como figura concluída, mas se apresenta em estado de formação, como se ainda estivesse em curso. Nesse sentido, não há separação entre constituição e dissolução: aquilo que se organiza também se dispersa. A obra não apresenta uma paisagem, mas evidencia processos de formação que permanecem ativos. A aproximação com o mito hindu da criação não se estabelece como ilustração, mas como estrutura de pensamento. Na dança de Shiva, o mundo não é dado de forma definitiva: ele emerge, sustenta-se por um tempo e retorna ao indeterminado. Criação e destruição operam como dimensões de um mesmo movimento, sem que haja uma condição final de estabilidade.
Essa lógica atravessa a própria materialidade do trabalho. O grafite, enquanto carbono depositado por atrito, permanece na superfície de forma instável e acumulativa. Sua organização se dá por camadas sucessivas, cuja densidade varia conforme a repetição do gesto. A imagem resulta desse processo de deposição progressiva, no qual a forma não é previamente determinada, mas emerge da continuidade das ações. Assim, A dança de Shiva tensiona a ideia de origem, permanência e fim. O centro não se apresenta como ponto fixo, mas como zona de irradiação. Não há retorno possível a um estado inicial, assim como não há estabilização definitiva da forma. O que se instaura é uma travessia: um campo onde matéria, tempo e gesto operam em condição de instabilidade. Ao invés de representar o colapso, a obra o assume como condição. Nesse sentido, ela não propõe uma imagem do mundo, mas sustenta a possibilidade de habitá-lo em transformação - onde ruína e permanência deixam de ser opostos e passam a constituir, conjuntamente, o próprio modo de existência contemporâneo.

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