Da Boca do Agora
Paula Fernanda Monte Santo
Técnica
Desenho
Materiais
Carvão, óleo e pastel seco sobre papel
Dimensões
100 x 65 cm
Ano
2026
Tiragem
não há
Texto descritivo
enviado em PDF
Texto conceitual
A obra se constrói a partir da ampliação de fragmentos de matéria orgânica, deslocando-os de qualquer reconhecimento imediato para um campo onde a imagem deixa de operar como representação e passa a atuar como inscrição. O que se apresenta não é um território, mas uma superfície atravessada por processos de formação, acúmulo e desgaste.
As estruturas visíveis — anéis, dobras, zonas de compressão e rarefação — evidenciam a passagem do tempo como matéria. Não há um antes ou um depois claramente delimitado; o que se manifesta é a simultaneidade de camadas, onde crescimento e interrupção coexistem. Nesse sentido, a imagem não fixa um estado, mas sustenta uma condição em curso.
A escolha do carvão introduz uma dimensão decisiva nesse processo. Trata-se de uma matéria que resulta da transformação da madeira pelo fogo, carregando em si a marca de uma alteração irreversível. Ao ser depositado sobre o papel, ele não apenas configura a imagem, mas reinscreve essa memória em novas camadas, onde a forma emerge por deposição, apagamento e variação de densidade.
O díptico instaura uma relação que não se resolve como continuidade plena. As duas imagens compartilham uma proximidade estrutural, mas não se unificam. Entre elas, estabelece-se um intervalo que impede a totalização e mantém a forma em estado de suspensão. Esse descompasso introduz uma tensão que atravessa toda a obra: aquilo que se aproxima também se desvia.
A paisagem, aqui, não se apresenta como cenário estável, mas como campo de instabilidade. A escala ampliada dissolve qualquer referência direta e coloca o observador diante de uma matéria que não se oferece à leitura imediata, mas exige permanência. O olhar não apreende a imagem de uma vez; ele percorre, acompanha, se detém.
Assim, a obra não representa a ruína, mas a sustenta como condição. A matéria não se organiza em direção a uma forma final, nem retorna a um estado originário. O que se estabelece é um regime de transformação contínua, onde permanência e colapso operam simultaneamente, sem hierarquia ou resolução.