Ilha dos Amores
Murilo Romeu
Técnica
Escultura
Materiais
Compensado naval, concreto permeável, água e bomba de aquário pequena submersa
Dimensões
13x40x40cm
Ano
2020
Tiragem
Única
Texto descritivo
enviado em PDF
Texto conceitual
“Ilha dos Amores” parte da observação dos processos de brotamento da água e de sua relação com a matéria mineral, aproximando paisagem, construção e mito. A obra investiga a possibilidade de um concreto que, ao invés de apenas conter e endurecer, seja capaz de verter água: uma estrutura simultaneamente sólida e porosa, construída a partir de camadas de concreto permeável, argamassa, madeira e fluxo hidráulico contínuo.
O trabalho surge do encontro entre referências cinematográficas, geológicas e literárias. O fervedouro do curta “Fervedouro”, de Cao Guimarães, e a nascente associada à morte em “A Fonte da Donzela”, de Ingmar Bergman, conduzem a reflexão sobre sistemas cíclicos em que matéria sólida e fluxo líquido deixam de se opor. A água aflora da pedra, enquanto a rocha parece adquirir características orgânicas e instáveis.
A peça assume a forma de um fragmento de relevo: uma pequena ilha artificial onde rios, infiltrações e erosões se formam continuamente sobre a superfície do concreto. O fluxo da água revela diferentes densidades, brilhos e texturas, ativando lentamente a matéria e evidenciando a paisagem como processo, nunca como imagem fixa. O som das gotas, os veios deixados pelas formas e o retorno constante da água transformam a obra em um sistema entrópico e circular.
O título faz referência à “Ilha dos Amores”, de Os Lusíadas, lugar mítico onde mortais e divindades compartilham temporariamente uma mesma temporalidade. A obra imagina uma espécie de ilha-máquina: um fragmento precário capaz de produzir um mundo provisório, sustentado por fluxos contínuos, mas inevitavelmente destinado à falha, ao desgaste e à ruína.